Pedro Henrique de Cristo
As mídias sociais nos celulares trouxeram as pessoas de volta para a caverna de Platão. Das transformações com a criação da escrita, livros, instituições, democracia, prensa, revolução industrial, eletricidade e educação pública até a concepção das tecnologias digitais o mundo viveu, apesar de percalços como guerras, colonização e o neoliberalismo, um avanço significativo na educação, criação de realidade compartilhada e evolução civilizatória com a luz do conhecimento. Entretanto, alguma coisa aconteceu no caminho. Os smartphones que a princípio foram tão práticos com seus aplicativos tiveram seu uso dominado em termos de tempo, engajamento e atenção pelas mídias sociais que funcionam no mesmo campo, o cérebro, mas de forma oposta aos livros.
Imagine uma biblioteca abarrotada de livros. Por meio da escrita, possivelmente a maior invenção da história da humanidade, temos em cada livro a extensão do cérebro e experiências do seu autor, ou autores. E nós, com curadoria própria, podemos escolher que livro ler e ter acesso a um novo mundo de maravilhas que ocorreu ou foi concebido há três mil anos ou no mês passado por meio da leitura. O fantástico dos livros é ainda maior pois neste processo nosso cérebro atua de maneira ativa, intencional e construtiva, literalmente, dentro do nosso tempo criando à partir de novas sinapses visões, cheiros, sentimentos e ideias à partir de um mundo compartilhado por outro cérebro, outra alma, em que o conhecimento e crenças compartilhadas se tornam parte de nós dentro de nossa vontade consciente.
Já com as mídias sociais ocorre o contrário. Nestas, ideias customizadas e escolhidas por outros ditam o que podemos ver, acreditar e dizer, o sonho do fuhrer e todos autocratas, por meio de um algoritmo feito para nos influenciar e se possível controlar. Isso funciona e é reforçado a todo tempo por meio de métodos de controle comportamental e neural, desde as práticas de condicionamentos de cachorros do neurologista e médico soviético Ivan Pavlov até tecnologias de propaganda modernas, as ad techs (onde o ad é de advertising, publicidade) tão usadas pela Meta no Facebook, Instagram e Threads.
Junto a isso e com o objetivo de aumentar nosso tempo de uso e intensidade de engajamento nas mesmas promovem instintos primitivos como violência, sexo e comparação alimentando o que há de pior em nós em períodos de tempo cada vez menores. Dos vídeos para os stories do Instagram até o TikTok e assim por diante, diminuindo nossa capacidade de atenção, reflexão e pensamento crítico. Enquanto isso aumentam nosso volume de consumo cada vez menos consciente no que ficou conhecido como downscrolling.
Ao longo do tempo, isso enfraquece nosso córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pelo controle de nossos impulsos, capacidade de antecipação e planejamento, o que leva a comportamentos mais agressivos, auto-destrutivos e dentro da lógica de tribo ao invés da prática civilizatória. No lugar do diálogo em busca do entendimento e construção de uma agenda comum, o conflito sempre. Diferente de infinitas possibilidades, o maniqueismo do “isso ou aquilo”. Nos enquadrando na conformidade pré-determinada pelo algoritmo do que deve ou não aparecer e do que deve ou não ser disseminado e aceito.
Desejam agir como domínios e potentados (anjos que controlam diferentes esferas da ordem universal e agem executando o que é certo e errado) do mundo da comunicação e percepção, no caso como verdadeiros anjos caídos como apontado por Caetano Veloso. São a simulação da realidade que atua para controlar a realidade. Desde o Chronos, o tempo linear da nossa percepção, até o Kairós, o momento oportuno de realizar uma mudança.
Nestas eleições isso ficou evidente. Em vídeo farsesco de deputado eleito de Minas Gerais símbolo da direita radical sobre como o Nordeste seria ficcionalmente mais pobre do que o Haiti a empresa Meta lhe deu um alcance de 160 milhões de views (vistas) apesar de o vídeo ter tido sua trilha sonora cortada por uso indevido de direitos autorais de dois músicos que declararam voto no presidente Lula, candidato a reeleição. O mais estranho é que o deputado tem 25.2 mi de seguidores no Instagram enquanto postagens do jogador de futebol português Cristiano Ronaldo que tem 679 mi não alcançam esse mesmo patamar. Para reforçar ainda mais as críticas, a retirada do aúdio do post se deu quando o mesmo tinha 100 milhões de views, com o mesmo conseguindo magicamente mais 60 mi de views sem som.
Tentar competir nas mídias sociais é cada vez mais um losing game (jogo de derrota) para quem estiver contra os interesses de quem controla o algoritmo, como o campo democrático começa a perceber pelo mundo.
O “Exército do Lula” comandado por outro deputado eleito e nativo das mídias digitais está conseguindo reverter momentaneamente isso criando possibilidades reais de equilíbrio do jogo no 2o turno mas para o futuro próximo só uma forte regulação terá efeito. Esse viés programado e criação de tribos das mídias sociais destrói o nosso pensamento crítico, o que como apontaram desde do filósofo grego Aristóteles em suas batalhas contra os sofistas ao teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer e a filósofa também alemã Hannah Arendt destrói as nossas democracias e as realidades compartilhadas que são as bases das nossa civilização.
Como uma bola de neve, as mídias sociais moldaram de maneira cada vez maior e mais rápida os parâmetros sociais de sucesso, atenção, sociabilidade e aceitabilidade. À princípio para ter mais lucro e em seguida para ter poder sobre todos os aspectos da sociedade. Até a mudança da semântica das palavras, algo possível mas que levava tempo por ser orgânico e compartilhado entre um número massivo de pessoas como apontado pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein em seu livro “Investigações”, hoje muda na velocidade e desejo do algoritmo e quem o controla.
Comportamentos estridentes, começam a ser chamados de “eloquentes” e os detestáveis de “exuberantes” fazendo a transição do sentido e uso das palavras das mídias sociais às mídias tradicionais. Principalmente ao se referir aos comportamentos de jovens candidatos despreparados, odiosos e extremamente bem votados da direita radical como podemos observar aqui no Brasil. Vivemos por meio da tecnologia uma volta às trevas onde a ode à ignorância e o poder por cima da razão junto a desvalorização de verdades objetivas baseadas em fatos se tornam a norma.
Como bem previu o astrofísico e humanista americano Carl Sagan em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”, nós arranjamos uma sociedade baseada na ciência e tecnologia na qual ninguém entende nada de ciência e tecnologia e em que essa mistura inflamável de ignorância e poder vai mais cedo ou mais tarde explodir nas nossas faces. Logicamente, há de se perguntar quem controla a ciência e tecnologia numa democracia se as pessoas não sabem nada sobre isso?
O que nos traz ao ponto de que a ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma maneira de pensar necessária para o funcionamento da própria democracia. E que se alguém conseguir moldar em escala nossa maneira de pensar contra a ciência e a busca pela verdade por meio de tecnologias que todos usam e ninguém entende a destruição intencional por meio de poucos dessa mesma democracia ou de qualquer outra coisa, como o clima como vivemos, se torna algo completamente viável até mesmo contra o desejo das pessoas. É notório que a larga maioria dos brasileiros apoiam a ação climática como prioridade, mas candidatos negacionistas são muito bem votados inclusive em áreas devastadas por extremos climáticos como no Rio Grande do Sul que foi salvo por dinheiro vindo da União, com contribuição vejam só do Nordeste também.
É isso que assistimos pelo mundo há dez anos, desde a eleição presidencial americana de 2016 com a ascensão da direita radical e de forma mais intencional na atual eleição presidencial no Brasil com o viés da Meta/Facebook contra o pólo democrático, como apontado pelo Ass. Especial da Presidência, o embaixador Celso Amorim, com base em relatório de observadores da ONU. Um país dominado por poucos em que capangas que sonham em se tornar vassalos, como o grupo do candidato da oposição, dos que controlam os algoritmos e seus aliados são elevados ao poder pode ser explorado e dominado muito mais facilmente por aqueles que controlam a tecnologia e ciência no mundo e não desejam compartilhar esse conhecimento. Os que querem as pessoas na caverna, nas mídias sociais, para que sejam manipuladas permanentemente contra seus próprios interesses.
Caros indecisos, é o imperativo categórico de quem preserva sua consciência votar pela reeleição do presidente Lula para que o Brasil consiga escapar por um fio da barbárie de uma nova ditadura e re-colonização no próximo domingo, mesmo que existam muitas críticas válidas pois a alternativa é a autodestruição do nosso país. Vocês são agora mais importantes do que nunca e da sua decisão dependem todos os brasileiros e o nosso sonho de país fruto da miscigenação dos povos como farol da integração do mundo. O Brasil precisa de vocês, o mundo precisa de vocês.
Com a graça da possível vitória neste domingo o primeiro ato do governo democrático reeleito tem de ser a decisiva regulação das mídias sociais com a obrigação da abertura dos algoritmos e a sua calibração para neutralidade de promoção, os estabelecimento das mesmas implicações jurídicas do mundo físico para o digital e a quebra da atual oligarquia digital. Onde apenas três empresas Meta, Twitter e TikTok invadem de forma monopolista cada uma em sua vertente de mídia social os cérebros, experiências e casas de milhões de brasileiros com o objetivo de nos colonizar a todo momento.
Junto a isso cabe ao pólo democrata agir onde falhou nas últimas décadas, educar e desenvolver nossa população e economia decisivamente para que possamos ter uma sociedade e democracia de bem-estar-social climático do século 21 onde os livros vençam as mídias digitais, as maiores armas de manipulação em massa, e onde a ação climática e cooperação superem o conflito que só serve aos interesses dos que controlam os algoritmos. Precisamos de regulação para as mídias sociais e mundo digital e incentivos para os livros, educação, democracia, clima, tecnologias brasileiras e tudo mais que for necessário para nossa população não para os pais e filhos da mentira que desejam nos dominar.










