“Uma nova democracia do clima está surgindo, e esta nova democracia tem grandes mulheres à frente”, disse Irene Vélez, a Ministra do Meio Ambiente da Colômbia, na conferência de imprensa que encerrou um encontro inédito e histórico de países que se declaram prontos e dispostos para uma transição real da matriz energética humana no planeta Terra.
Estou falando da I Conferência Internacional de Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, uma cúpula ambiciosa realizada no final de abril em uma parte muito especial da América Latina: entre as montanhas da Sierra Nevada e as águas salgadas do Caribe colombiano, na cidade simpática e antiga de Santa Marta, 57 nações se comprometerem com o que pode se transformar em um novo e importante fórum internacional de tomada de decisão climática.
Sediada, nesta primeira edição, pelos governos da Colômbia e da Holanda, a I Conferência Internacional de Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis criou um “espaço seguro” – como disse Stientje van Veldhoven, ministra holandesa que coordenou a Conferência junto com Irene Vélez, a ministra colombiana – para endereçar um assunto complicado: petróleo e crise climática.
A novidade é que, em Santa Marta, a transição energética já não foi mais questionada: saímos, enfim, do “transicionamos ou não?” e avançamos rumo ao “como transicionar?”. Afinal, petróleo e derivados representam cerca de 80% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera — o que explica a urgência de mudar a forma como os usamos.
Se, por um lado, novas tecnologias prometem — e, por vezes, confundem — possibilidades de um planeta habitável aos humanos, por outro, a inimaginável lucratividade e poder da cadeia petrolífera nos coloca a mercê de um impulso megalomaníaco e suicida sobre o qual ainda não sei escrever.
Embora grandes nações emissoras como Estados Unidos e China não estivessem presentes em Santa Marta, podemos dizer que a Conferência foi mesmo relevante: juntos, os países presentes representam 1/3 do consumo mundial de combustíveis fósseis e 1/5 da produção — ou seja, formam um bloco consideravelmente importante dentro da cadeia produtiva fóssil.
Em todos os dias do evento, estive perto de indígenas e representantes comunitários de territórios que lutam por sua vida. No final, saí de Santa Marta animada e inspirada: a mistura de povos em um cenário de confluência de pensamentos me plantou esperança. Se essa nova democracia é mesmo real e tem grandes mulheres à frente, caberá a nós pensar, articular, viabilizar e implementar a bendita transição de forma real, justa e equitativa — tanto quanto possível.
Estamos falando de uma nova COP?
Sediada, nesta primeira edição, pelos governos da Colômbia e da Holanda, a I Conferência Internacional de Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis criou um “espaço seguro” – como disse Stientje van Veldhoven, ministra holandesa que coordenou a Conferência junto com Irene Vélez, a ministra colombiana – para endereçar um assunto complicado: petróleo e crise climática.
Embora a I Conferência Internacional de Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis não se posicione como um espaço que rivalize com as COPs (UNFCCC ou Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), há muita similaridade em seus propósitos.
Em Santa Marta, entendi que a Conferência vinha, formalmente, para “complementar e acelerar decisões tomadas nas COPs” – mas, informalmente, provoca este mesmo espaço a avançar com algumas decisões: afinal, das trinta COPs que já tivemos no mundo, apenas uma mencionou combustíveis fósseis no seu documento final.
Para mim, que estive presente apenas na COP30, no Brasil, as similaridades não pararam por aí: seja em Santa Marta, seja em Belém, eu percebi uma série de setores – povos indígenas, jovens, mulheres, crianças, afrodescendentes, sindicatos, movimentos sociais, ONGs, cientistas e parlamentares – se reunindo para criar seus respectivos documentos com demandas e posicionamentos, colorindo os espaços com diversidade.
Além disso, parecida com Belém, Santa Marta foi uma experiência iluminada e solar. São duas cidades latinas onde as pessoas gostam de comer peixe, ouvir música e andar de mototaxi. Nas duas ocasiões, a moto me expôs à vida da cidade, às pessoas, à quentura e às buzinas que anunciam sua passagem pelos corredores caóticos do trânsito.
Em Santa Marta, a areia branca das praias ainda abertas à visitação se mesclam com o preto do carvão extraído das montanhas da Sierra Nevada. Não foi coincidência o encontro ter sido aqui: para as quatro nações originárias que a habitam – Kogis, Arhuacos, Wiwa e Kankuamo –, Santa Marta é o “coração do mundo”. Para o sistema econômico hegemônico, por outro lado, a cidade se reduz a um dos maiores centros de exportação carvoeira do planeta.
Governança, presente!
Por todos os lados que olhei, eu vi a Governança presente. E, em todos eles, eu pensei: por que é tão difícil colocar soluções em prática? Criar sistemas coordenados de tomada de decisão e ação que levem em consideração tanta variedade de gente, de mundo e de interesse é realmente uma das coisas mais complexas que consigo imaginar.
Dentro disso, ressalto os ladinhos em que a Governança se mostrou com graça para mim: eu vi a Governança, por exemplo, quando falamos de territórios tradicionais livres de combustíveis fósseis — e do desafio em garantir o direito de povos originários dizerem “não” à exploração deles.
A Governança também esteve presente quando falamos de lideranças conscientes, fortalecidas e preparadas para ocupar espaços de poder. De juventude engajada. De mecanismos legais para “colocar a Vida no centro” — e da distância entre os marcos institucionalizados e o que acontece no chão.
Na roda de partilhas latino-americanas e caribenhas, um moço de movimentos indígenas e campesinos há mais de 30 anos perguntou o que é preciso para transformar os sonhos em algo mais perto do real — ou o real algo mais perto dos sonhos. E eu pensei que uma possível resposta poderia ser “nomear as coisas como elas realmente são”, como disse Abigail Gualinga, liderança indgíena do povo Kichwa, no Equador.
Para ela e para muitos povos da terra presentes, o que os outros chamam de “recursos naturais” são, na verdade, “fontes de vida”. E não se trata de “petróleo” — estamos falando do “sangue da terra”.
Colonização, presente!
“Está claro que a colonização não acabou”, disse uma moça da Venezuela no Encontro Regional da América Latina e do Caribe — um dentre os vários espaços paralelos e populares que integraram a I Conferência de Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis.
Entre indígenas, ONGs, jovens, mulheres e sindicatos, foi igual: a transição será justa ou não será. Trabalhadores, comunidades e territórios não podem pagar o preço da transição. É doído assimilar as várias camadas de uma única verdade: quem mais sofre com os impactos do colapso climático é quem menos contribui para que ele aconteça.
Um exemplo didático é: países como Tuvalu – que sediará a próxima edição da Conferência em 2027 ao lado do governo da Irlanda – e outras ilhas do Pacífico estão fazendo muros contra o aumento do mar. Estas nações estão bem longe de serem as principais responsáveis por isso, embora sejam umas das mais ameaçadas.
O Observatório da Transição Energética e algumas reflexões finais
Escrevo este texto mais de dois meses depois do final da Conferência de Santa Marta, quando o Observatório da Transição Energética recém-lançado pela Repórter Brasil e pela Pulitzer cruza dados inéditos e assustadores sobre o avanço da exploração de minerais críticos e de usinas de energia renovável no Brasil.
Segundo este mesmo Observatório, energias renováveis já impactam 34% das áreas protegidas no Brasil. No lançamento da plataforma, escutei um de seus idealizadores dizer que “o tema da transição energética tem sido usado para expandir hidrelétricas, usinas fotovoltaicas e eólicas, ameaçando territórios quilombolas, rurais e indígenas, e criando uma nova onda de comoditização da economia brasileira como grande exportadora de energia”.
Vale lembrar, ainda, que recentemente, as negociações do clima em Bonn foram um grande fracasso, vivemos a Copa do Mundo com a maior emissão de gases de efeito estufa da história e a Colômbia acaba de eleger um candidato de extrema direita em sua presidência.
Dito tudo isso, concluo que desconheço até que ponto é possível pensar uma transição energética com justiça real e transformá-la em um vetor de desenvolvimento e benefícios para todos – incluindo a Natureza. Neste momento, se penso em um futuro mais possível do mundo, eu me pergunto se a resposta está em diminuir radicalmente nosso metabolismo enérgetico, para comer menos pedaços da terra e, assim, quem sabe, segurar por mais tempo o céu…
O Observatório da Transição Energética e algumas reflexões finais
Escrevo este texto mais de dois meses depois do final da Conferência de Santa Marta, quando o Observatório da Transição Energética recém-lançado pela Repórter Brasil e pela Pulitzer cruza dados inéditos e assustadores sobre o avanço da exploração de minerais críticos e de usinas de energia renovável no Brasil.
Segundo este mesmo Observatório, energias renováveis já impactam 34% das áreas protegidas no Brasil. No lançamento da plataforma, escutei um de seus idealizadores dizer que “o tema da transição energética tem sido usado para expandir hidrelétricas, usinas fotovoltaicas e eólicas, ameaçando territórios quilombolas, rurais e indígenas, e criando uma nova onda de comoditização da economia brasileira como grande exportadora de energia”.
Vale lembrar, ainda, que recentemente, as negociações do clima em Bonn foram um grande fracasso, vivemos a Copa do Mundo com a maior emissão de gases de efeito estufa da história e a Colômbia acaba de eleger um candidato de extrema direita em sua presidência.
Dito tudo isso, concluo que desconheço até que ponto é possível pensar uma transição energética com justiça real e transformá-la em um vetor de desenvolvimento e benefícios para todos – incluindo a Natureza. Neste momento, se penso em um futuro mais possível do mundo, eu me pergunto se a resposta está em diminuir radicalmente nosso metabolismo enérgetico, para comer menos pedaços da terra e, assim, quem sabe, segurar por mais tempo o céu…










