Admito, eu estava ansioso para assistir Digger, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu estrelado por ninguém menos que Tom Cruise — vulgo “O” Top Gun, “o” Missão Impossível, entre vários outros “O”s ao longo da sua carreira. Brincadeiras à parte, fiquei animado com mais um filme mainstream sobre a emergência climática e ambiental. Não me entendam mal, longe de mim acreditar que o cinema hegemônico norte-americano pode resolver as questões ambientais, mas há muito discutimos a necessidade de recolocar a natureza na cultura, em especial na cultura pop.
Quando assisti ao trailer, com um magnata do petróleo caricato que precisava salvar o mundo (a Europa, no caso do filme) de um problema que ele mesmo causou, pensei: “Poxa, tá aí o que faltava, mais uma sátira. Será que só conseguimos retratar a emergência ambiental desse jeito no cinema?” As últimas grandes produções sobre o tema de que me lembrava seguiam essa mesma linha: Não Olhe Pra Cima (2021) e Extrapolations (2023), zombam da situação de uma maneira válida, mas, convenhamos, não foram bem recebidas fora da nossa bolha do clima.
Fui para o cinema com a crítica pré-formada: “lá vamos nós, pregar para convertidos mais uma vez”. Eu estava pronto para escrever este texto, dizer que precisamos repensar as representações, imaginar novos futuros e encontrar outros argumentos no nosso repertório cinematográfico. Bom, eu estava enganado.
Não me proponho aqui a realizar uma análise minuciosa do filme, muito menos um juízo de valor sobre sua execução técnica, que, por sinal, está maravilhosa. Mas gostaria de me retratar. Iñárritu consegue, em pouco mais de duas horas, nos transportar para um futuro provável, que em parte já vivemos. Ele consegue, por meio da narrativa e dos personagens, se apropriar da lógica da sátira e ao mesmo tempo quebrá-la, transmitindo o conteúdo ambiental de uma maneira inovadora. Seus méritos enquanto obra e o star system de peso têm tudo para furar a bolha e levar a pauta ambiental a espaços cada vez maiores, tornando-a mais presente no cinema e, em especial, na Academia do Oscar.

Durante o filme, na cena em que Digger depõe no que parece ser o plenário do Parlamento Europeu, me lembrei da frase que abre O mito do progresso ou progresso como ideologia, de Gilberto Dupas: “No alvorecer do século XXI, o paradoxo está em toda parte.” Nesse sentido, acredito que a grande contribuição do filme, assim como o livro de Dupas, esteja em discutir esses paradoxos, nossas escolhas e o que entendemos como progresso no Ocidente. Quais indicadores estão atrelados àquilo que consideramos uma boa vida? O que trocamos pelo luxo e pelo conforto moderno? Essas perguntas resumem a discussão que vai além do nosso impacto individual e das emissões por classe social. Os países e indivíduos mais ricos são, sim, responsáveis por grande parte das emissões de CO2, mas, paradoxalmente, na sociedade moderna somos todos consumidores que alimentam e destroem um sistema insustentável.
Saio da sala com sentimentos conflitantes. Quero nomear os culpados, pesquisar o nome de cada CEO dos conglomerados petrolíferos e vê-los pagar pelo mal que causam. Ao mesmo tempo, quero esperançar, no sentido de Paulo Freire, a mim mesmo e ao coletivo, quero viver e imaginar futuros em que não somos consumidores que patrocinam quem busca o lucro em detrimento da vida.
Fecho meu texto com esperança no cinema, esse ser também paradoxal, ao mesmo tempo arauto e algoz da modernidade. Espero que Digger encontre um público para além dos convertidos e que possa, na medida do que lhe cabe, fornecer a chance de imaginar um futuro diferente daquele proposto por Iñárritu. Para os nerds do clima, apesar de todos os pesares, que o filme ofereça um fio de esperança, cada vez mais difícil nos nossos dias. Estou curioso para acompanhar as repercussões na academia e na crítica. Afinal, quanto mais barulho o clima fizer, melhor.
Guilherme Vassoler é documentarista e fotógrafo com foco em mudanças climáticas. Também atua como pesquisador, explorando a relação entre comunicação e crise climática.










