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Juiz de Fora e como se preparar para os eventos extremos

O urbanismo climático traz soluções para enchentes
Chuvas extremas provocaram enchentes e deslizamentos em Juiz de Fora e Zona da Mata de MG. Fonte: Wikipedia

 

 Pedro Henrique de Christo

 

Sistemas de alerta sozinhos não mudarão a situação das populações em risco de eventos extremos. Fotos de solidariedade e recursos emergenciais não melhorarão a recuperação dos territórios impactados e “planos multissetoriais” vagos continuarão não sendo capazes de materializar a A&R-Adaptação e Resiliência necessárias para construção de um futuro viável. Para poder resolver essa situação que assistimos mais uma vez, agora em Juiz de Fora, MG e na Zona da Mata mineira, no século em que temos que mover água ao invés de carros nas nossas cidades1, nós precisamos melhorar drasticamente três elementos da ação climática: (I) Modelagem Hidroclimática na escala das cidades e infraestruturas e em relação a cenários futuros; (II) Realizar a transformação urbana, infraestrutural e territorial necessária por meio de projetos de Urbanismo Climático capazes de produzir A&R, Mitigação e Integração Urbana ao mesmo tempo e; (III) criar a arquitetura institucional e financeira devida para realizar essa transformação. A seguir como transformar em realidade esses três elementos decisivos para a construção de um futuro viável.

       Existem hoje não apenas um mas dois elefantes na sala da modelagem climática e hidrológica. (I.I) O primeiro é a necessidade de realizar um downscaling (aproximação de escalas) nas modelagens hidroclimáticas da escala planetária, onde nossos modelos são fantásticos e funcionam muito bem tais quais o CMIP6 do IPCC-ONU, o Copernicus da ESA (Agência Espacial Européia) ou NEX-GDDP-CMIP6 da NASA junto com o IPCC. Apesar da qualidade das previsões climáticas em escalas planetárias, não possuem a precisão suficiente para informação segura nas escalas onde as pessoas vivem. Isso se dá porque a margem de erro para previsões de cenários climáticos e hidrológicos em áreas urbanas gira em torno de 30-50% (Norges Bank)2, como visto no caso clássico do erro de 34% na previsão do mapa de enchentes do FEMA (Federal Emergency Management Agency)3, o CEMADEN dos EUA, no caso do furacão Helene no estado da Carolina do Norte, EUA, no final de 2024. Isso se dá pois os modelos planetários se baseiam em quadrantes de satélite que variam de vários km2 (ex:10km2 a 5km2) a na melhor das hipóteses a 80m2 em imagens 2D na forma de pixels sem contar variações decisivas de topografia, topologia e espaço construído.

Sistema de Downscaling dos modelos CMIP6 do IPCC-ONU, NASA HyMap e 4D

      

 

É preciso integrar de maneira interdisciplinar (Artaxo, P)4 os modelos de escala planetária com os melhores modelos de meso-escala como o HyMap (Getirana, A)5, modelo hidrológico da NASA, que adaptado de áreas costeiras, deltas de rios e áreas pantanosas para áreas urbanas utiliza quadrantes de até 200m2 para eventos hidrológicos, e finalmente com modelos baseados na nova tecnologia de modelagem 4D (de Christo)6. Esta realiza modelagem paramétrica na escala do m3 em 4D (nas três dimensões x, y e z com a quarta, t de tempo) usando a tecnologia de gêmeos digitais (uma maquete digital de cidades e territórios) desenvolvida entre colaboradores brasileiros, membros da gestão Bloomberg em NYC e das universidades de Harvard e MIT, inicialmente na favela do Vidigal em 2014-15 e mais recentemente no semi-árido brasileiro com precisão de modelagem de impactos hidrológicos e geológicos de 95% para eventos hidroclimáticos em topografia montanhosa em 2019 na mesma favela e em topografia de vale (várzea) na cidade nordestina.

Esse processo de downscaling permite que os modelos 4D funcionem com cada vez maior precisão e também alimentar com inputs (inserções) de dados melhores as modelagens de maior escala do HyMap ao CMIP6 do IPCC.  (I.II) O segundo elefante é o fato de que não é mais suficiente modelar cenários futuros (NOAA)7 com base em dados históricos pois degringolamos tanto o equilíbrio climático do planeta que o futuro para o qual modelamos historicamente não existe mais, ou seja, precisamos modelar cenários futuros dos quais não temos dados históricos. A saída é que fazendo o downscaling dos modelos citados teremos muito maior precisão para medir impactos como também modelar projeções futuras do “destralhamento” climático pois poderemos fatorar as dinâmicas existentes e futuras com muito mais precisão.

Esse elemento I.II nos leva ao ponto II.: não só não apenas podemos contar com planos multissetoriais vagos e lentos que podem um dia ou não se transformar em realidade; como até para projetos que cheguem a ser realizados não podemos nos basear em dados históricos e meteorológicos de curto prazo pois como dito acima, esse futuro não existe mais. Para fazer projetos realmente capazes de produzir a Adaptação e Resiliência necessários precisamos fazê-los a partir das projeções geradas por essas modelagens feitas com downscaling de alta precisão com tecnologia 4D. A beleza disto é que essa tecnologia de modelagem paramétrica 4D permite também que os projetos desenvolvidos sejam testados antes de serem construídos para que os de melhor performance de resiliência e custo-efetividade sejam escolhidos8. Isso é decisivo pois sabemos que o custo da inação climática é de 7 (Banco Mundial)9 a até 18 vezes ou mais do que o de adaptação (Report of the Governor of NC e UE)10 mas que mesmo que façamos a coisa certa como sociedade as pressões fiscais geradas serão imensas. Ou seja, não teremos chances para errar como fazemos hoje globalmente com processos de tentativa e erro com projetos e políticas públicas.

Exemplo de urbanismo climático: Estrutura Multifuncional de Resiliência NAVE do Sertão de Cabrobó, PE; fonte: +D

 

 

Outra questão decisiva que tem de ser dizimada é a completamente ilógica, na verdade insana, discussão de que se deve escolher entre mitigação (transição energética) e adaptação e resiliência quando na verdade nós da área do Urbanismo Climático sabemos pela prática de que a base de sua ação junto a ser realizada com base na modelagem com integrações de escala 4D é o desenvolvimento de estruturas multifuncionais de resiliência urbana, ou seja fazer tudo ao mesmo tempo em todo lugar. É a base do Urbanismo Climático realizar intervenções que sintetizem adaptação e resiliência, com energias renováveis e reuso de água e integração espacial e socioeconômica como observado no projeto NAVE do Sertão em Cabrobó, PE, intervenção em ⅓ da cidade do Vale do Rio São Francisco onde fica a última adutora de sua transposição11, ou projetos em NYC, Copenhagen e Amsterdam, entre outros.

Finalmente, para desenvolver essas soluções precisamos de III. Novas Arquiteturas Institucionais e de Financeiras. Muito se fala na Autoridade Climática, um passo positivo mas de semântica complicada pela realidade política do federalismo e de estados democráticos. Melhor que a punição são os incentivos, por isso é importante pensar numa Agência de Ação Climática (AAC), como uma NASA do Clima, onde são desenvolvidas soluções para as cidades, infraestrutura e territórios em todos os biomas do país e em parceria com os governos federal, estaduais e municipais onde projetos tais sejam atrelados a recursos de um fundo que realmente funcione para o clima. Para se ter acesso aos recursos existentes, neste desenho institucional, assim como em outros, os entes federativos teriam que desenvolver e realizar projetos com essa agência. Um elemento fundamental para o funcionamento da citada Agência e dos projetos de Urbanismo Climático é a aplicação de mecanismos de participação direta das populações em seus territórios nos projetos a serem desenvolvidos fazendo uso de meios e mensagens de comunicação climática com linguagens acessíveis e claras para que a população se torne não só protagonista do desenvolvimento dos mesmos assim como de sua manutenção e evolução futuras12.

Todos já escutamos várias vezes a frase de Einstein de que “não adianta fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”. Fica claro que o mesmo vale para como respondemos a Crise Climática e seus impactos humanos, urbanos e ambientais. Não temos tempo a perder, as coisas só se complicam nesse mundo em que vivemos uma cantada crise de segurança13. Não se enganem, nós podemos estar longe de guerras e bombas mas a crise de segurança devido a crise climática é a maior de todas, com a crescente aproximação de impactos de proporções bíblicas. E infelizmente, nós, junto com os demais países em desenvolvimento, somos os menos culpados, mas já somos e seremos cada vez mais os que mais sofrerão. Mesmo com o risco de Guerra Nuclear e IA, o Caos Climático é e continuará sendo cada vez mais o maior risco existencial da história da humanidade pelo simples fato de que todos os demais riscos acontecem dentro do nosso clima. Agir como adultos que conseguem pensar e agir minimamente além do curtíssimo prazo é no que dependem a civilização humana, nosso país e nossas famílias. Sejamos responsáveis.

 

1de Christo, P. et Washburn, Alexandros; “De mover carros a mover água: o próximo século do desenho urbano”. Folha de São Paulo, 2025. https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/06/de-mover-carros-para-mover-agua-o-proximo-seculo-do-desenho-urbano.shtml  

2Norges Bank 

/https://www.nbim.no/contentassets/f5113a9575524a6f92cc873963c49af9/climate-change-as-a-financial-risk-to-the-fund.pdf     

3Whashington Post 

https://www-staging.washingtonpost.com/weather/2024/10/13/fema-flood-maps-hurricane-helene/ 

4Artaxo, P., Break down boundaries in climate research. World View Section, Nature 481, 239, 2012.

5Getirana, A., Mandarino, F., Ney de Montezuma, P., Kirshcbaum, D., C.E., 2021.”An urban drainage scheme for large-scale flood models.” https://doi.org/10.1016/j.jhydrol.2023.130410

6, 8, 11 de Christo, P., Climate Urbanism. Accommodating Growth in Latin American and Caribbean Cities, ISBN: 978-1-59782-580-1, 2025.

7NOAA https://www.climate.gov/maps-data/dataset/future-climate-projections-graphs-maps 

9World Bank

https://documents1.worldbank.org/curated/en/099111324172540265/pdf/P500583-a1804a10-44a4-4f5f-9aae-8bc0f1396763.pdf 

10NC State Government

https://www.osbm.nc.gov/helene-federal-funding-request-sept-2025/open  

12de Cristo, P. et Shannon, C. Digital Agora: a physical+digital space for participatory Democracy”, ACSA, AIA Journal of Architecture and Urbanism, DOI: 10.35483/ACSA.Intl. 2016.17

13de Cristo, P,

https://fervuranoclima.com.br/noticias/seguranca-clima-guerra-e-violencia-urbana/

 

Pedro Henrique de Christo (urbanista climático, fundador do escritório +D // Urbanismo Climático, criador da tecnologia de modelagem paramétrica 4D, presidente do Instituto NAVE –

Novo Acordo Verde e MPP’11 Harvard);

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