Fervura no Clima e uma ilustração de turbina eólica.

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Fervura no Clima e uma ilustração de usina termelétrica sendo desativada.

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No clima e na Copa a realidade se impõe

Nossa atuação no combate ao aquecimento global lembra a da Seleção Canarinha na Copa do Mundo de 2026
Rafael tenta consolar Neymar çogo após elimininação da Copa - Yardbarker Creative Commons

Assim como na Copa, no clima narrativas manipuladas por dinheiro investido em marketing, algoritmos de mídias sociais, SEOs (sistemas de busca do Google) e no youtube, e reforçadas pela mídia são irrelevantes para a realidade física das coisas. Na Copa, o Brasil vive seu pior momento na história por querer forçar nas oitavas de final do torneio esportivo mais competitivo do mundo a presença de um ex-jogador sem condições físicas que não consegue se destacar no campeonato brasileiro e nem fazer a diferença contra um time reserva do Recoleta da Argentina na Copa Sul-Americana. Um verdadeiro negacionismo desportivo praticado porque o mesmo traz patrocinadores e mídia para a CBF e seus controladores, o que inclui desde políticos até juíz do STF. 

No clima, acredita-se que negando as coisas por um lado e –apesar de reconhecer o problema– fazer as coisas do mesmo jeito pelo outro, o que também é uma forma de negacionismo, os resultados perante os cada vez mais devastadores eventos climáticos extremos serão diferentes. Nos dois casos a física mostra que não está nem aí para a manipulação advinda da tolice de que a realidade pode ser moldada apenas com discursos. 

Na Copa, sofremos desde a convocação vendo jogadores de primeira linha mundial como o atacante João Pedro do Chelsea serem deixados de fora para convocação de um boneco de marketing que apesar de superestimado no Brasil, tendo sido sempre coadjuvante nos principais títulos que conquistou na Europa, já foi um grande jogador há muito tempo mas hoje é apenas um ato de circo para alguns poucos ganharem dinheiro. Vimos um lateral-direito que é reserva em seu clube no Brasil ser convocado e jogar como titular devido a “confiança do técnico” assim como um volante com a mobilidade de uma carreta ser responsável por controlar o meio de campo. O ponto, jogadores em fim de carreira que não jogam mais em alto nível não iriam jogar milagrosamente o necessário na hora mais difícil. 

Colocar o ex-jogador em campo prejudicou o esquema tático já frágil, pois tirou as duas principais ameaças  brasileiras, Vini Jr e Endrick, de perto do gol adversário, jogando um para a ponta esquerda e o outro para ponta direita. Essa terrível substituição, deixou o time com um a menos para o primeiro combate já deficiente no campo adversário. O que liberou ainda mais os jogadores da Noruega, um time limitado mas competente na sua proposta e com um excelente atacante, a dominarem ainda mais o meio de campo devido a lentidão do jogador carreta e assim, com a facilitação de menos um em campo, subir suas linhas e atacar o Brasil pelo lado direito, do lateral reserva no seu clube, fazendo os dois gols por ali. Ou seja, forçar mentiras na realidade não tem apenas um efeito isolado, o ex-jogador não prejudica apenas o ataque, mas sim um impacto sistêmico: desequilibra todo um time. 

A infeliz substituição gerou comportamentos histriônicos e deploráveis como a atitude deste ex-jogador com o goleiro adversário na cobrança de pênalti no último minuto do jogo. Ao invés de cobrar o penal rapidamente e tentar uma última jogada para o empate e o bem coletivo, o mesmo tenta fazer mais uma vez garantir que tudo seja sobre ele ao querer humilhar o goleiro –que ri de sua cara e atitude, o fazendo individualmente e coletivamente derrotado mais uma vez. Entretanto, o que importa para o mesmo é ter material para mais um corte que transforme seu retumbante fracasso em momento de auto-afirmação. Similar ao que fazem muitos políticos hoje na era das aparências das mídias sociais.

No clima, temos duas formas principais desse modus operandi. O primeiro é o mais grotesco que é o negacionismo climático. Narrativas (como Aristóteles ficaria triste de ver conceito tão importante prostituído como o é hoje) insanas de que não existe crise climática, que mudanças atmosféricas na velocidade atual sempre ocorreram e que atuar pela saúde do clima e meio ambiente, das quais dependemos é uma conspiração da nova ordem mundial. Os mais próximos desta “narrativa”, hoje, são os tecnofacistas do agora neo-reacionário Vale do Silício com seus ineficientes e caros data-centers movidos a petróleo, gás e carvão. 

A outra é a que defende no discurso de que o clima e o meio ambiente são importantes mas que o petróleo é o único caminho, comum aos declarados negacionistas, e que essa energia suja é riqueza e nós dependemos dela sem possibilidades de mudanças. Mesmo que a realidade seja que energia limpa é hoje mais barata, eficiente e não nos mate. Foi o que vimos na COP 30, um fracasso retumbante onde se defendeu a todo o custo abrir poços de petróleo na foz do Rio Amazonas em meio às tratativas sofistas do evento onde foi dito que “o petróleo vai financiar a transição energética”. Ou que, o importante é fazer o “mapa do caminho”, quando sabemos que o caminho se faz andando.

Enquanto se discute esse etéreo mapa o açougueiro mor do Brasil que destrói a floresta, Joesly Batista, depois de aprontar com Aécio Neves e Michel Temer, continua extremamente influente do Brasil aos EUA de Trump enquanto compra termelétricas de carvão, a mais suja das energias, para então fazer lobby para que o governo, via congresso, compre sua energia enquanto fervemos dentro da atmosfera planetária cada vez mais. 

De maneira mais imediatamente física, no que se refere a adaptação e resiliência vemos o surgimento de mais e mais planos que nunca dão em nada, pois é fato que papel aceita tudo, diferente da realidade. Precisamos de projetos, programas e políticas públicas específicas com recursos, prazos, territorialidades, tecnologias, metodologias e resultados liderados por equipes nacionais mas integrando expertise de fora. 

Como no futebol, não podemos ser vira-latas do clima achando que qualquer solução liderada e vinda de fora será melhor mesmo que seja incompatível para nós ao custo da segurança de milhões de pessoas e nossa soberania. Precisamos ser o que nós somos, antropofágicos, pegando o que há de melhor de fora, incorporando soluções úteis e liderando os processos com colaboradores estrangeiros como os técnicos brasileiros incorporaram a tática dos grandes times húngaros de 1940-50 após um de seus treinadores passar pelo Brasil criando as bases do nosso 4-4-2, que nos ganhou 4 de nossas 5 copas.

Em termos práticos as coisas não podem ser feitas como sempre foram, com processos dúbios na seleção de projetos, uma chaga intrínseca ao setor público e que se mantém governo após governo. Fazer tudo dentro do “combinado” entre os que têm poder não muda a realidade da matéria, seja em todos os níveis de governo ou na CBF, seja no clima ou na Copa do Mundo. Vivemos o funeral da desclassificação do nosso país na Copa pela forçação de barra da mentira na realidade à favor do ganho financeiro de poucos, o que já é causa justa de funeral espiritual e cultural no nosso povo. No clima, a situação é infinitamente mais complicada, pois os funerais e as destruições não são figurativos, são reais. Manipulações e mentiras não fazem parte das leis da física. Na Copa e no clima precisamos fazer diferente pois disso depende nosso espírito coletivo e nossas vidas. 

 

 

Pedro Henrique de Christo: fazedor de políticas públicas, urbanista climático e presidente do NAVE – Novo Acordo Verde; MPP’11 Harvard

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