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JANTE COM UM AMBIENTALISTA.

Cazuza, também não me chamaram para nenhuma festa pobre. Ou nobre. Nem sequer para um simples jantar. Mas acredito que o estranho, nesse caso, seja eu, pois sou ambientalista.

 

Não os culpo. A forma como a maioria do movimento ambientalista se comunica é extremamente retrógrada, elitista e está distante da nossa principal justificativa discursiva: o olhar para o futuro e para as próximas gerações. 

 

Para o senso comum ser ambientalista é sinônimo de punição. Uma “abdicação de prazeres” que acompanha o indivíduo durante todo o seu dia. 

 

Não é raro nos depararmos com brasileiros que escolheram o banho como o seu lugar para reflexão diária. Aquele, para muitos, é o único momento de se encontrar consigo mesmo. De memórias, programações rotineiras à ideias mirabolantes. Alguns fazem do banho até um palco para um show musical particular. 

 

Aí vem o ambientalista e limita o seu tempo no chuveiro. Como se já não bastasse estar imerso em uma rotina de extremo cuidado com os horários, até o momento mais íntimo de nosso dia a dia se torna cronometrado. “Malditos, ambientalistas!” É o que qualquer pessoa pensaria. 

 

Após o banho, rumo ao trabalho! Abandone o conforto do seu carro. Realize o trajeto em transporte coletivos, superlotados, sem assentos disponíveis, com mau cheiro, e, assim, evite a emissão de gases poluentes em meios de transporte individuais desnecessários. 

 

Mais uma vez, “malditos, ambientalistas!”. 

 

Final de semana. Hora do sossego e de encontrar com amigos e familiares para um bom churrasco? Nem pensar. A pecuária é uma das principais emissoras de metano, gás extremamente prejudicial à saúde do planeta. Além de causar o mal-estar animal dos bovinos. Falando em animais,  abandone também os sapatos e bolsas de couro, esqueça o luxo das celebridades globais. Aliás, você não precisa de luxo. Evite as práticas consumistas do sistema. Resista! O seu celular, de seis anos atrás, mesmo desatualizado e quebradiço, ainda serve. Assim como seu computador lento e seu sofá rugoso. 

 

“Malditos, ambientalistas!”. Novamente, é o que qualquer pessoa pensaria.

 

E, é claro, de nada adiantará mudar o seu banho, a forma como você se locomove, como você come, como se diverte e o que consome se você não derrubar o sistema econômico. O capitalismo é o causador de todos os males da sociedade. Então trate de se mobilizar para derrubarmos um sistema que perdura há mais de 500 anos e é tudo o que você, seus pais, seus avós e bisavós conhecem. 

 

“Malditos, ambientalistas!”. 

 

É, pensando bem, eu entendo por que não convidam ambientalistas, como eu, para ocasiões informais. Devem imaginar que, em minutos, somos capazes de destruir todos os prazeres e substituí-los por mais responsabilidade, cobranças, questionamentos e aflições. 

 

Por isso, defendo que um ambientalismo real deve ser um movimento que não busque atribuir rancores aos antepassados, afronta aos presentes e, muito menos, um débito às futuras gerações. Um ambientalismo real deve aprender com os erros (e acertos) daqueles que os antecederam, entender as motivações de seus contemporâneos e incentivar os seus sucessores. Uma nova ideia de abordagem que visa colocar a importância da pauta ambiental de forma transversal, acessível e palatável a todos aqueles que são impactados por um meio ambiente deteriorado sem perspectivas de um futuro sustentável. 

 

Quando eu era criança, uma das minhas maiores alegrias era ir à uma praça, a poucos metros de casa. Verde era o que não faltava. Me divertia em um balanço que, em dias de sol, me alçava ao céu, cada vez mais rápido. Gostava de ir de manhã, onde o clima ameno junto com o cantarolar dos pássaros tornavam aquele momento único. Após algum tempo, com o descuido da poda, o abandono do poder público e a falta de articulação de uma associação civil o tornaram um local de vegetação agressiva e despovoado de crianças e utilizado para o tráfico de drogas. Nenhuma outra criança é alçada ao céu naquele lugar. 

 

Segundo a pesquisa do Ibope em 2018, nove em cada 10 brasileiros querem estar mais em contato com o meio ambiente. Nós, ambientalistas, devemos aproveitar isso para reforçar a nossa defesa de um Brasil mais justo e sustentável. Um dos principais destinos dos brasileiros durante as férias é a praia. Mais da metade sonha com esse momento pós-pandemia. Porém, essa realidade, com o aquecimento global, pode estar comprometida: o aumento do nível dos oceanos, causado pelo derretimento das calotas polares devido a elevação da temperatura da terra, pode fazer com que diversas praias sumam ao final deste século. Sem contar a proliferação de algas marinhas que atormenta cada vez mais o Atlântico, inviabilizando as águas cristalinas que encantam os banhistas de todo o mundo. Sabe aquele seu peixinho frito da santa ceia? Também entra em risco em um cenário de oscilação do planeta.

 

A partir dessa mudança de abordagem, invertemos a lógica: convidamos a mudança climática para casa de cada cidadão em um diálogo que deve ser feito na mesa de jantar, da forma mais familiar possível. Dispensando inclusive o convite. Além do “peixinho”, também podemos tratar sobre outros componentes indispensáveis na alimentação brasileira. Sabe a Amazônia? Aquele espaço de terra verde que você acha um desperdício por não ser substituído por grandes espaços urbanizados com shopping centers e estacionamentos? Ela também é responsável pelo regime de chuvas no centro-sul do país. Menos chuvas, mais estiagem. Mais estiagem, menos produção de alimentos. Em suma, a sua feira de domingo vai ficar mais cara. As hortaliças, os legumes, as frutas. Afeta o seu bolso, afeta a sua dieta e o bom-humor de sua filha, que decidiu virar vegana no último mês. Ainda que, cá entre nós, você não entenda muito bem ainda o que isso significa, posso te antecipar: ela não come presunto. 

 

Começaste a entender a importância da preservação ambiental? Chega a dar um frio na barriga, não é? 

 

Não só na barriga. As mudanças climáticas promovem o efeito “Karatê-Kid”. “Tira-casaco, bota-casaco”. Invernos e verões mais rigorosos e oscilantes. Vai ficar mais difícil planejar o seu figurino diário em um cenário de instabilidade climática. Se você gosta do calor, é uma notícia ruim. Se, assim como eu, prefere o frio, não fica menos complicado.

 

Já sei, é o suficiente. Agora você se preocupa com o planeta. 

 

E para isso, não foi preciso nada muito radical. Apenas conversamos sobre como imaginar a sua vida desconexa do futuro da natureza. Não se trata mais sobre pensar o amanhã, mas sim de conscientizar o hoje. 

 

Barack Obama, que dispensa apresentações, alertava para o fato de sermos a primeira geração a sentir os efeitos das mudanças climáticas e a última capaz de ainda tomar alguma atitude para mudar os rumos do planeta. Mas calma, ainda há tempo.

 

E pra você, ambientalista. De nada adianta dominarmos os efeitos do CO2, do N2O e do CH4 se não soubermos a principal fórmula da construção de um ambientalismo brasileiro: a paciência e o diálogo. Desarme-se ao falar sobre um futuro verde. Ele não será construído sobre os rígidos pilares da intolerância e da afronta. Seja simples, seja objetivo, seja receptivo. Somos os porta-vozes da natureza. O mundo não precisa de mais furacões e tornados, mas da calmaria de um rio que deságua na construção de um mundo melhor.

JANTE COM UM AMBIENTALISTA.

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