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Para Adalberto Maluf, da BYD, governo ideológico impede avanço da nova economia do clima no Brasil

Assim como a fervura do planeta, já não é mais novidade que o combate às mudanças climáticas está impulsionando a economia e a indústria do futuro. E é ainda menos novidade que, para o sucesso de modelos mais limpos e responsáveis de produção e consumo, alguns setores são particularmente estratégicos, a exemplo da geração de energia renovável e da mobilidade elétrica. Não à toa, dois mercados atendidos pela gigante chinesa BYD, presente em mais de 50 países, incluindo, desde 2015, o Brasil, onde a utilização de seus produtos foi responsável, até agora, pela redução de 256 mil toneladas de CO2 por ano, o equivalente ao plantio de 1,8 milhão de árvores.

De fato, como uma das maiores fabricantes de placas solares, veículos elétricos, baterias e equipamentos logísticos verdes do mundo, a BYD parece que não poderia estar em um melhor momento e mais alinhada ao contexto, mesmo com a retração de investimentos causada pela pandemia da covid-19. 

Os números não mentem. No primeiro semestre de 2021, de acordo com a ABVE (Associação Brasileira de Veículos Elétricos), a venda de veículos elétricos no Brasil teve um crescimento de 84%, com o furgão eT3 da BYD sendo o líder de emplacamentos no último mês de junho. Além disso, até o final do ano, a geração distribuída de energia solar, estimulada pela queda global de preços dos módulos fotovoltaicos e os efeitos da crise hídrica, deve quase dobrar no País em relação a 2020, saltando de 4,4 gigawatts para 8,3 gigawatts em 2021, ou 55% da capacidade instalada da usina elétrica de Itaipu, conforme mostram dados da Absolar (Associação Brasileiras de Energia Solar Fotovoltaica). Para acompanhar essa demanda doméstica pela fonte renovável, que desde 2012 trouxe R$ 30,6 bilhões em investimentos privados (de grandes e pequenos geradores) e criou 180 mil empregos, a empresa chinesa abriu em março mais um turno de operação para a sua fábrica em Campinas (SP) e já planeja mais uma ampliação de trabalho em breve. Se tudo der certo, serão 24 horas, de segunda a segunda, de produção para bater a projeção de vendas de 1 gigawatt em placas solares no Brasil em 2021.

Contudo, para Adalberto Maluf, diretor de Marketing e Sustentabilidade e figura mais pública da BYD no Brasil, há potencial para mais. “Apesar dos resultados estarem melhorando significativamente por aqui desde o fim de 2020, a BYD teve um crescimento 207% na venda de veículos elétricos no mundo inteiro em 2021, frente nossos 84% de toda a indústria nacional. Há 45,9 milhões de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus em circulação no Brasil, mas somente 40 mil são elétricos. E dos estimados 87 milhões de consumidores de eletricidade no Brasil, apenas 0,7% utiliza a que é gerada pelo sol. É pouco e ainda muito tímido na comparação com países com os quais costumávamos competir no cenário internacional. A verdade, infelizmente, é que se criaram muitos empecilhos nos últimos dois anos”, ressalta ele em entrevista exclusiva para o Fervura no Clima, na qual muito francamente expõe sua visão como estudioso e representante relevante do setor produtivo nacional.

Segundo o executivo de 39 anos, que já foi assessor na Secretaria de Meio Ambiente da prefeitura de São Paulo, entre 2006 e 2007, e ocupou até 2014 o cargo de diretor da Clinton Climate Initiative em parceria com a Rede de Cidades C40, o que atravanca o avanço de empresas como a BYD no Brasil, com respostas tecnológicas para o aquecimento global, é a falta de um planejamento, ou mesmo visão, para a economia no governo do presidente Jair Bolsonaro e na atuação do ministro Paulo Guedes. “É um governo muito ideológico, que vai na contramão do mundo no planejamento da economia e no estímulo à indústria, cada vez mais orientada não apenas pela inovação tecnológica, mas também pelas metas globais de redução de emissões de carbono, que hoje abrangem quase todas as cadeias de valor imagináveis”, explica ele para depois dar exemplos, como a política de exceção tarifária para importação de placas solares e a recentemente aprovada MP de privatização da Eletrobrás, que interferem na competitividade da indústria brasileira diante dos novos frameworks legais e produtivos estabelecidos para o enfrentamento das mudanças climáticas na Europa e nos EUA.

Também presidente da ABVE, entidade de classe que reúne 68 membros do setor da mobilidade elétrica no País, Maluf acredita que estamos perdendo a chance de investir na crescente economia do clima ao não subsidiar com inteligência a indústria local, por meio de metas de eficiência energética, marcos legais e uma política tributária mais vantajosa. “Se, por um lado, temos as empresas promovendo suas agendas ESG por meio da eletrificação da mobilidade e do uso de energias renováveis, por outro, temos um ministério [da Economia] preocupado apenas em atender os interesses do setor financeiro ou do agronegócio. A estratégia está errada e, por conta disso, estamos perdendo os novos mercados. Veja o caso da Tesla, que recebeu financiamento do departamento de energia dos Estados Unidos, cerca de US$ 465 milhões, quando ela sequer estava consolidada. E ainda teve financiamento de longo prazo, 10 anos, com juros baixos para quase não precisar pagar”, diz.

Personagem central no avanço da sustentabilidade no Brasil, Maluf conversou comigo por quase duas horas, sempre mantendo um altíssimo nível técnico, assim como uma surpreendente sinceridade opinativa. Abaixo, segue uma versão editada e simplificada da sua entrevista, priorizando e sintetizando os temas mais centrais e sensíveis.

 

Fervura – Para uma empresa como a BYD, presente em mais de 50 países e muito bem posicionada para atender as demandas globais cada vez maiores por energias renováveis e eletrificação do transporte, como o Brasil está inserido hoje em sua estratégia? Qual é o potencial considerado por esta gigante chinesa das tecnologias verdes no país?

Adalberto Maluf – Na visão da BYD, o Brasil sempre foi enxergado como um dos principais mercados em potencial por conta dos processos de urbanização recentes que estão acontecendo no país. Estamos falando de uma profusão de cidades que cresceram muito, mas ainda não desenvolveram grandes infraestruturas. Então, há essa oportunidade em ofertar essas novas infraestruturas para finalidades sustentáveis, agregando recursos renováveis, o que sempre foi um fator importante. O Brasil tem uma base consumidora crescente e, ao mesmo tempo, abundância em radiação solar, água e terra, o que gera uma perspectiva otimista para quem investe. Como o país já foi o sexto maior mercado de carros, o segundo maior mercado de ônibus, o terceiro maior mercado de caminhões, entre outras posições de destaque, uma gigante da tecnologia que trabalha nessa área, obviamente, tem que estar inserida no contexto brasileiro. A gente acredita que o Brasil seria uma grande base de exportação da América Latina, esse sempre foi nosso plano ao investir aqui. Inclusive, o primeiro ônibus elétrico que rodou na Colômbia, em Medellín, foi produzido aqui no Brasil e exportado para lá.

Fervura – Quando você diz “seria” ao falar desse potencial industrial e produtivo do Brasil para ser esse pólo que atende o continente, dá a entender que isso ainda não acontece como deveria, que há, de certa maneira, empecilhos.

A.M. – Veja bem, a BYD vendeu 1.500 ônibus elétricos em 2020 para a Colômbia e nenhum veio do Brasil, todos vieram da China. Como você bem notou, isso mostra as dificuldades que nós encontramos também em empreender no Brasil e tornar o país uma sede desse desenvolvimento latino-americano como um todo.

Fervura – Então, mesmo na conjuntura econômica e tributária do Mercosul é difícil ainda levar essa produção industrial e tecnológica, que tem mercado no contexto do combate às mudanças climáticas, para os países vizinhos? Por que?

A.M. – Sim, o Brasil vem perdendo seus mercados industrializados na América do Sul há alguns anos. No momento, o país passa pela maior desindustrialização de bens de complexidade média e alta de sua história recente. Os únicos setores que crescem na indústria nacional de transformação são os de alimentos, de petróleo e biocombustível. Infelizmente, a indústria como um todo sofre um pouco de preconceito no governo Bolsonaro, que tem um discurso contrário aos subsídios estatais estratégicos para o seu crescimento, na contramão do que ocorre agora nos EUA e na Europa, onde a estrutura política, legal e financeira se redesenha. E, para o Brasil, não poderia ter um pior momento para o posicionamento desse atual governo, porque o mundo está passando por uma revolução tecnológica, voltada para a transição energética dos combustíveis fósseis, a redução das emissões de carbono e a sustentabilidade nas cadeias de valor no contexto das mudanças climáticas. O Brasil tinha, até pouco tempo atrás, uma presença global significativa na indústria de média complexidade, a exemplo da indústria de maquinários e automotiva, mas ela foi perdida porque o modelo de industrialização baseado na substituição e importação de tecnologias se esgotou. Hoje, a industrialização no resto do mundo é promovida pela inovação, na capacidade de exportação dessa inovação e também no atendimento ao mercado doméstico. Ao não investirmos em infraestrutura, fomento à ciência e à pesquisa básica, as empresas brasileiras ficaram pouco competitivas no novo contexto global.

Fervura – Contudo, o que se vê hoje como tendência é um enorme esforço do setor empresarial no Brasil para entrar em conformidade com as melhores práticas globais, especialmente na promoção de uma agenda corporativa ESG. Isso não ajuda a colocar a indústria em condições melhores para participar desse modelo econômico baseado em inovação?

A.M. – Mesmo na estratégia do catching up, de implementar avanços conforme a necessidade, que o mundo em desenvolvimento utilizou muito, pegando mercados já consolidados e produtos que estão em crescimento para tentar melhorar a tecnologia, o Brasil ficou de fora. Há um gargalo muito grande a ser coberto pela produção industrial brasileira, mesmo quando comparada ao México, Turquia ou Coreia do Sul, países que são similares ao Brasil e competem pelos mesmos mercados. Eu, por exemplo, tenho alguns dados que mostram como a China ocupou o espaço do Brasil nas exportações de veículos na América do Sul. Fiz um estudo para tentar convencer a matriz da BYD a investir mais aqui por conta da exportação para o resto do continente e, na a hora que os dados chegaram, eu mesmo fiquei abismado! Até 2015, o Brasil mantinha uma porcentagem considerável das vendas de veículos maiores a combustão para a América do Sul como um todo, mas, de 2015 a 2018, fomos perdendo este espaço em praticamente todos os mercados. Se antes a gente disputava o consumidor na Colômbia, hoje a China exporta 14 vezes mais para lá. A Argentina e o Uruguai, em outros casos, nunca tinham comprado carros ou ônibus que não fossem brasileiros e agora trazem da China. E o que vemos é que os produtos que estão vindo da China, ocupando estes mercados, são produtos de maior valor agregado, mais alinhados ao alcance de objetivos como a redução global de emissões.

Fervura – No sentido do que você diz, que o Brasil está cada vez menos atraente para investimentos estrangeiros qualificados e em produtos de maior valor agregado e mais sustentáveis, os dados recentes divulgados pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) são reveladores. Apenas em 2020, o montante em recursos de fora destinados ao país diminuiu 62% no total, com as indústrias de petróleo (-60%), transportes e logística (-90%), eletricidade e gás (-62%), que têm especial atenção em subsídios, planos de privatização e regulação tributária do governo, puxando uma boa parte dessa queda, que é a maior em 20 anos. Há uma dissonância entre a estratégia econômica estimulada por esse governo e as expectativas globais?

A.M. – Sim, e veja que a média da retração entre os países emergentes, entre os quais o Brasil figurava, foi de menos de 10%.  A pandemia da covid-19 trouxe consigo a crise, mas também um momento de reconstrução das economias globais. Nessa conjuntura, o Brasil já vem daquela crise de 2015 e 2016, mas é em cenários como o atual que se torna ainda mais imprescindível o papel do governo como coordenador, articulador e criador de visão de futuro para a industrialização ou qualquer área da economia. É o que você vê no pacote verde europeu, aprovado em abril, que quer zerar emissões até 2050 e encerrar a venda de veículos a combustão em 2035. São 700 bilhões de euros em financiamento, acompanhados de diretrizes, metas de eficiência energética, metas de redução de poluentes.

Fervura – E são metas ousadas dentro do framework legal aprovado pelo parlamento europeu. Não se fala em redução de intensidade de emissões, referentes ao que já é gerado produtivamente, mas em redução global.

A.M – Inclusive, tem um estudo mostrando que, para atingir a meta de neutralidade de carbono para 2050, o que já estava aprovado para a produção de veículos elétricos não conseguiria atingir as novas metas. Logo, estão tentando levantar ainda mais a régua da eficiência energética, trazendo recursos, pesquisa e inovação para coordenar o trabalho dos países membros. Isso, por exemplo, está muito de acordo com a tese da Mariana Mazzucato, uma grande economista italiana e professora de Economia da Inovação na University College London, que defende que o financiamento de longo prazo, ou financiamento paciente como ela chama, pode ser muito destrutivo para a inovação voltada para a transição. Quando você pega um momento de transformação tecnológica, não é o setor privado, não é a Mercedes do Brasil, com ações em Bolsa, que vai fazer inovação para criar um veículo elétrico novo no Brasil, até porque não tem mercado. O setor privado cria respostas de curto prazo e o papel do governo é financiar, coordenar e integrar a academia, a indústria e o setor produtivo, especialmente durante momentos difíceis. O que a gente vê é que a Europa fez isso. A China, óbvio, faz isso há mais de 20 anos, principalmente para a consolidação e a coordenação entre as estatais e o trabalho de pesquisa e inovação avançada dos setores que eles querem ter para o futuro. Se, por um lado, temos as empresas promovendo suas agendas ESG por meio da eletrificação da mobilidade e do uso de energias renováveis, por outro, temos um ministério [da Economia] preocupado apenas em atender os interesses do setor financeiro ou do agronegócio. A estratégia está errada e, por conta disso, estamos perdendo os novos mercados. Veja o caso da Tesla, que recebeu financiamento do departamento de energia dos Estados Unidos, cerca de US$ 465 milhões, quando ela sequer estava consolidada. E ainda teve financiamento de longo prazo, 10 anos, com juros baixos para quase não precisar pagar.

Fervura – Nesse seu último exemplo, fica claro que mesmo nos EUA, onde a intervenção estatal na economia e a regulação dos mecanismos de mercado são historicamente criticadas pelos conversadores, isso tem mudado.

A.M – Claro, aí vem os EUA com a eleição do Joe Biden. Ele aprovou a maior política industrial da história dos EUA, mais de U$ 2 trilhões, com U$ 480 bilhões voltados para pesquisa avançada para indústria do futuro, a indústria resiliente no contexto global das mudanças climáticas. Isso vem da ideia de que, quando você tem um ecossistema de inovação robusto sendo criado em nível mundial, as grandes empresas se adaptam às novas diretrizes, às novas regras do jogo. Nesse sentido, há também o exemplo da Alemanha que, depois do plano europeu de redução de emissões, revisou suas metas internas e acrescentou mais 20 bilhões de euros em tecnologias de mobilidade a hidrogênio, renovação da indústria do futuro, infraestrutura… Também a França, que colocou 12 bilhões de euros. Todos estão investindo em linha com uma nova estratégia global. Por não ter uma política industrial e energética consolidada com o movimento climático global, o Brasil está ficando ainda mais para trás.

Fervura – Ao falarmos em sistematização de uma infraestrutura legal e política para a nossa indústria, a exemplo da energética, há tentativas que deveriam ter mais visibilidade, caso do Projeto de Lei 5.829/19, que fala sobre a regulamentação da energia elétrica distribuída e incentivo à geração por fontes renováveis?

A.M – A energia solar é um bom exemplo disso. Precisamos de um marco legal, de um marco jurídico aprovado para ela que permita esse incentivo também para uma política industrial e retire impostos dos insumos necessários para a expansão dessa geração renovável. O ideal é ter algo em que o governo diz: “Olha, se você industrializar aqui, trazendo maior capacidade para a produção de placas fotovoltaicas, baterias de lítio-ferro e ampliação da distribuição, eu dou menos imposto e o produto importado agora não vai pagar zero de imposto, ele vai pagar um pouco mais”. Isso abre a possibilidade para incentivos conjuntos à pesquisa e à inovação. Mas nós não temos uma política industrial, nem do setor automotivo, nem do setor de novas energias. O setor privado fica perdido, ele fica sem interlocução. Para piorar, desde o início do governo Bolsonaro, o Ministério da Economia não gosta de se reunir com industriais. Durante muitos e muitos meses eles se negam sistematicamente. E eu não estou falando de BYD, eu mesmo nunca pedi, mas do presidente da ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), do presidente da ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), das grandes associações, que representam 20% do PIB, além de uma grande fatia da arrecadação em impostos. O Carlos da Costa, atual secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, simplesmente não os recebe.

Fervura – Na sua opinião, por que há esse receio do Paulo Guedes e seus secretários em receber estes industriais? E como isso se relaciona com a posição desfavorável do país em relação à nova agenda global de desenvolvimento responsável orientada ao combate das mudanças climáticas?

A.M. – O que eu sinto, e eu já ouvi isso de outros presidentes de outras associações, é que o pessoal acha que o governo hoje, o Ministério da Economia, é muito ideológico. Eles são ortodoxos liberais radicais, muito alinhados à Escola de Chicago e de maneira completamente fora da curva. Eles vem de uma base de pensamento que é daquele neoliberalismo que sequer existe mais, o neoliberalismo de Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Escola de Chicago que já tinha afundado e foi enterrado de vez pelo Brexit e pelo New Deal do Joe Biden. Basicamente, o que o setor produtivo vê no governo brasileiro é um governo muito alinhado aos interesses do setor financeiro. E, como mostra o Thomas Piketty (economista francês que se tornou figura de destaque internacional com seu livro “O Capital no século XXI”), quando você tem retornos de investimentos financeiros sistematicamente muito maiores do que os retornos da capacidade produtiva e do capital produtivo, ocorre um enxugamento do capital disponível e o deslocamento da renda. Cada vez mais os industriais e as empresas não têm capacidade produtiva para inovar ou para expandir, porque nos últimos 5 anos os recursos se concentram nos serviços financeiros. A agenda do Paulo Guedes e do Carlos da Costa reflete isto. Se você for ver, eles só recebem empresas como BTG Pactual, Pátria Investimentos ou empresas globais com interesse na privatização das infraestruturas disponíveis. E o setor produtivo, aquele que produz e quer fazer, eles não recebem porque têm medo de que as empresas fiquem mostrando as distorções.

Fervura – Quais distorções?

A.M. – Como, por exemplo, algumas portarias recentes de Exceção Tarifária, que zeram os impostos de importação de alguns produtos, mesmo aqueles que têm produção nacional, utilizam as mesmas patentes e ainda pagam imposto nacional maior. O instrumento de Exceção Tarifário é importante, mas para zerar o imposto de importação de um bem que não é produzido localmente, ou que é mais eficiente. Agora, na agenda desse governo extremamente ideológico, que não debate os problemas que as áreas técnicas apresentam, isso gera distorções dificílimas de contornar pela indústria. Aliás, não sou eu quem está dizendo, não é o Adalberto que descobriu isso, são os técnicos do próprio Ministério.

Fervura – Poderia dar um exemplo de produto que resume bem essa falha estratégica?

A.M – Claro, o painel solar fotovoltaico hoje é um produto que paga zero de imposto de importação, zero PIS/COFINS, zero ICMS, zero tudo, se for para o consumidor final. Se for aquisição em um investimento para o mercado de distribuição de energia, por exemplo, paga alguns, mas não tantos. Imagine então o empreendedor, aquele que vai fazer as grandes usinas ganhas em leilão e está fazendo investimento no Mercado Livre de Energia. Ele, nessa conjuntura, vai preferir o produto importado, já que o produto nacional paga custos sobre os insumos, paga PIS/COFINS mesmo naqueles bens com isenção de IPI. Quando você explica e mostra uma tabela detalhada, vai ver que se paga 28% de imposto na placa da BYD, feita no Brasil, enquanto a importada só paga 12%.

Fervura – No Brasil, é quase um tabu falar em qualquer tipo de protecionismo para corrigir distorções como essa, mas no resto do mundo isso tem se tornado mais comum e até alavancado para estimular a transição energética para as fontes renováveis e de baixo impacto ambiental.

A.M – Sem dúvida. Na China, se você exporta minério, você paga mais imposto, mas, se você exporta produto com alto valor agregado, você paga bem menos. Na verdade, o governo te devolve o imposto que você pagou. O mundo inteiro faz isso, aliás. Aqui, por outro lado, eles criaram uma forma altamente ideológica para administrar a economia, que não tem amparo na legislação, mas o Paulo Guedes vai lá e dá uma canetada, como no caso dessa portaria de Exceção Tarifária que afeta as placas fotovoltaicas. Por ela, basta a placa do exterior custar 5% mais barato, independente de eficiência, prazo de entrega ou produção nacional, que o seu imposto é menor, somente 13%, enquanto o do produto brasileiro é de 28%. É coisa de louco! No dia que essa portaria foi aprovada, eu estava no Senado na reunião com a comissão parlamentar encarregada. O barulho foi tanto que o Caio Megale, então secretário da indústria, caiu. Ele se defendia com argumentos estapafúrdios do tipo “não, porque o liberalismo é melhor para todo mundo, em todos os momentos da história”. Caro, onde você estudou? A gente está num caminho totalmente contrário ao resto do mundo e, para piorar, em meio a uma crise. É algo completamente desconexo da realidade, mas não voltaram atrás. O mais curioso é que o Megale ainda caiu para cima, virou assessor especial do Paulo Guedes por 2 meses e depois se tornou economista-chefe da XP.

Fervura – Da mesma forma essa agenda liberal, mais voltada aos interesses do setor financeiro, influi em questões como a Medida Provisória aprovada recentemente para a privatização da Eletrobrás? Vale lembrar que ela foi bastante criticada por estabelecer cotas obrigatórias de geração de energia por térmicas a gás e carvão, além da construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), quando o mais razoável seria investir em energia solar ou eólica, que possuem custo-benefício cada vez melhor, geram mais empregos e poluem menos.

A.M. – Quando falamos em energia hoje no cenário global vemos uma revolução dos 4 D’s: descentralização, digitalização, descarbonização e desenvolvimento. Mas é aquilo, vivemos o neoliberalismo à brasileira, que beneficia uma determinada classe corporativa de amigos, privatizando os lucros para poucos grupos do mercado financeiro e socializa os prejuízos para todo mundo, o consumidor doméstico, a indústria etc. A Eletrobrás foi privatizada por R$ 60 bilhões para construir 8 gigawatts de térmicas, mas o custo para os contribuintes, estimo, será de R$ 84 bilhões no longo prazo. Não faz sentido você pegar um negócio que vai custar mais para a sociedade, na conta de luz e na quantidade de emissões geradas. Além disso, o dinheiro, esses R$ 60 bilhões, vai entrar parcelado na conta CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), que financia os subsídios das térmicas, do gás, entre outros. Ou seja, não é sequer dinheiro que entra no caixa. Fica muito claro que a privatização foi ideológica apenas para que se possa dizer que algo foi privatizado. Agora, ao colocar a agenda de planejamento do energético como um subproduto ideológico, você cria um problema gigantesco.

Fervura – O que pareceu, ainda parece, é que não houve qualquer preocupação com a sustentabilidade na aprovação dessa MP, um requisito cada vez mais presente dentro das cadeias globais de valor. Mesmo no caso das PCHs, uma fonte de baixo impacto, há a possibilidade de degradação ambiental nos locais onde elas são previstas. Sem falar na necessidade de construção de gasodutos para as térmicas.

A.M. – No caso das PCHs, obrigando a contratação de 50% dessa fonte em um momento de crise hídrica, a única coisa que embasa isso é uma pesquisa que a ABRAPCH (Associação Brasileira de PCHs e CGHs) fez no ano passado, que revela que entre 20% e 30% dos membros do Congresso eram sócios de projetos de PCH. É a única explicação! Por que você vai contratar uma hidrelétrica pequena que custa quatro vezes mais do que uma solar ou uma eólica? Não faz sentido. O pior, na minha opinião, como tenho respondido, é o Ministério da Economia abrindo mão de ser o planejador da economia, de ser o viabilizador da economia do futuro, da economia que é melhor para os consumidores, que é melhor para a sociedade. A atuação dessa pasta deixa o governo ser cortado pelas forças da ineficiência, então metade tem que ser PCH e uma boa parte, da outra expansão, é o Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica).

Fervura – Era exatamente o que eu ia perguntar. Na MP da Eletrobrás, o Proinfa foi mantido por mais 20 anos, obrigando a comercialização da energia já contratada. Isso não é algo positivo?

A.M. – O nome é até bonito, né? Mas estamos falando de um Proinfa feito há 20 anos. Então vou dar um exemplo de parque eólico, não de solar, pois o Proinfa não têm solar, tem um pouco de eólica, sendo a maior parte da geração de PCH, térmica e biomassa. O parque de Osório, lá no Rio Grande do Sul, tem um custo de R$ 600 por megawatt. Faz sentido para você, como um planejador do sistema elétrico, comprar geração eólica que já está paga e custa bem mais caro, quando se pode criar um projeto novo que vai gerar emprego e investimento a partir de uma tecnologia que é muito mais barata, como a energia solar? Não faz sentido algum, mas é o que acontece no Proinfa, que vai postergar por mais 20 anos o subsídio para tecnologias de 20 anos atrás, menos eficientes e mais caras. Eles tratam o setor elétrico como uma coisa qualquer, mas estamos falando de algo que precisa de visão estratégica de longo prazo para tudo, para a indústria, para a defesa, para o meio ambiente e para nossa capacidade de resposta futura às mudanças climáticas também.

Para Adalberto Maluf, da BYD, governo ideológico impede avanço da nova economia do clima no Brasil

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