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Então Elon Musk não sabia?

Numa fria quarta-feira (12/5), investidores e entusiastas do mercado de criptomoedas foram pegos de surpresa por um tweet do bilionário Elon Musk (de novo ele), anunciando que a Tesla, sua empresa montadora de veículos elétricos, não aceitaria mais Bitcoin como forma de pagamento por seus carros e congelaria suas operações com o ativo. A justificativa, segundo o comunicado, é pautada no que parece ser uma repentina conscientização de que a mineração e as transações de Bitcoin geram um terrível impacto ao planeta, o que não é novidade alguma e foi abordado logo na estreia desta coluna no Fervura no Clima (volta pra dar uma olhada, será útil).  

 

Para quem acompanha, fica difícil acreditar que Musk, na vanguarda da eletrificação da mobilidade, um sujeito que consegue aterrissar foguetes em pé e quer colonizar Marte, cercado das melhores mentes e analistas do mundo diariamente, não soubesse sobre o custo climático da Bitcoin, na qual colocou US$ 1,5 bilhão da Tesla e estimados outros US$ 5 bilhões do próprio bolso nela e em variadas criptomoedas, aliás. Mas essa história é cheia de ironias e reviravoltas, com Musk se provando tão volátil quanto o próprio valor da Bitcoin, que, em pouco mais de um mês, entre 14 de abril e 19 de maio de 2021 (alguns dias após o tweet), variou de US$ 64 mil para US$ 36 mil. E do jeito que está, talvez seja melhor ouvir o misto de conselho e tirada de sarro de Bill Gates: “se você não é o homem mais rico do mundo, não deveria comprar Bitcoin”.

 

A influência de Musk no valor das criptomoedas e, consequentemente, na intensidade das emissões de gases de efeito estufa geradas por elas é inegável. Da mesma maneira que a ratificação por ele e a aceitação da Tesla elevaram os valores da Bitcoin para patamares recordes, nas primeiras 24 horas desde que anunciou sua paralisação de investimentos nela, houve queda de 15% no ativo, arrastando consigo 8 das 10 criptos mais capitalizadas no mundo, como a Dogecoin (-19,6%) e a Ethereum (-12,4%), além da própria Tesla, que perdeu 5% de seu valor de mercado. A questão, porém, é que, quando a Bitcoin estava em alta, houve a intensificação de dois efeitos legitimados por Musk: o Fear of Missing Out (o medo de ficar de ficar de fora) e a corrida pela mineração do ativo, o que demandou ainda mais energia elétrica, geralmente proveniente de fontes não renováveis, como o carvão e outros combustíveis fósseis.

 

O próprio Musk compartilhou um artigo que fala sobre o caso de uma planta termelétrica considerada “zumbi” no estado de Nova York, nos EUA, na qual a maior parte da energia produzida é utilizada para fazer funcionar os poderosos servidores e processadores para a mineração de Bitcoin por venture capitals e private equities, todas tentando surfar na onda de alta. No Brasil, por exemplo, as termelétricas atuam como complementares ao grid de energia, sendo ativadas conforme a necessidade e o estresse de outros sistemas de baixo impacto, a exemplo das hidrelétricas, mas, ao redor do mundo, onde a atividade de mineração de Bitcoin é bem maior, termelétricas passaram a ser ativadas sem necessidade e/ou mais utilizadas apenas para atender a sede dos especuladores. 

 

É preciso imaginar o potencial impacto disso na atmosfera, sabendo que a China é responsável por 75% da mineração de Bitcoin no mundo e 65% da energia gerada no país é provida por termelétricas, uma fonte de energia que eles não têm muita vontade de largar em breve. E, se a Bitcoin fosse um país (pasmem!), ainda em maio deste ano, a sua mineração consumia mais energia que a maioria das nações um total estimado de 143 TWh/ano , ficando atrás apenas dos EUA, da China e da Alemanha, as maiores economias globais, segundo o Cambridge Centre for Alternative Finance.

 

Mas outras criptos deixam a mesma pegada?

 

No entanto, logo após dizer que daria um “pause” em suas operações com Bitcoin, enquanto não houvesse aumento da ecoeficiência da moeda, Musk afirmou que trabalharia nesse sentido com os desenvolvedores de outra cripto em sua carteira, a “fofa” e pet friendly Dogecoin, na qual ele também é responsável por uma enorme valorização desde fevereiro. A coerência do movimento pode ser considerada duvidosa não só pelo histórico de Musk, mas também pelo design do blockchain da Dogecoin, que funciona de forma semelhante ao da Bitcoin, com alto potencial para o aumento das emissões geradas. 

 

Assim como a Bitcoin, a Dogecoin funciona sob o protocolo de mineração chamado “Proof of Work” (PoW ou Prova de Trabalho, na tradução), que utiliza mais energia elétrica no esforço computacional necessário para fazer os cálculos criptográficos que resultam nas novas moedas. No PoW, para criar novos pedaços de blockchain (hashes) de Bitcoin e Dogecoin válidos, um minerador deve ser capaz de provar que realizou todos os cálculos requisitados, facilitando a verificação pelos outros. Todos os milhões de cálculos e histórico de transações que estão nessas moedas são guardados, exigindo mais espaço de armazenagem a cada novo pedaço criado em servidores e data centers, com alguns sendo criados especificamente para esta função. 

 

Daqui pra frente, é provável que Musk, se realmente estiver trabalhando com os desenvolvedores da Dogecoin, estude uma mudança em seu protocolo de mineração. Um deles seria o “Proof of Stake” (PoS ou Prova de Participação, na tradução), já utilizado pelas criptos Ethereum e Neo. Neste modelo, relativamente mais eficiente, a capacidade de mineração de um investidor é proporcional à quantidade de ativos que ele possui em sua carteira. Ou seja, quanto mais do blockchain ele tem, mais fácil é para minerar/calcular novos blocos de dados. Desta maneira, o consumo de energia e o impacto ambiental pela mineração são diminuídos em toda a cadeia de geração do token. Inclusive, um dos pontos centrais da proposta do PoS, quando foi desenvolvido, era evitar a troca ou venda dos ativos digitais por dinheiro “de verdade” por seus usuários para pagar a conta de luz, então uma real preocupação para a consolidação das criptos como sistema monetário alternativo. Ainda assim, somente a mineração de Ethereum consome o equivalente à Islândia em energia por ano.

 

Outros blockchains, como Cardano, Polkadot e Algorand, estão testando novos modelos, com protocolos de mineração que permitem mais cálculos por segundo de forma eficiente e com ganho de escala. O consumo de energia nesses ativos seria equivalente ao de um único servidor aplicado, mas resta saber como isso vai se dar se tiverem picos de valorização e com futuras análises de sua demanda de eletricidade.

 

Musk: um problema de governança

Pensando bem, estamos sempre a um tweet de Musk de ver picos de consumo de energia elétrica e emissões no mundo. Imagine os milhões de pessoas que acompanharam a sua participação no programa Saturday Night Live, no dia 8 de maio, esperando a valorização da Dogecoin em tempo real, o que não ocorreu. Se ele não tivesse feito uma piada dizendo que todo seu interesse na moeda não passava de “um esquema”, o estrago climático poderia ter sido maior. Ao invés de uma desvalorização de 30% nesse ativo, teríamos visto um boom na corrida por sua mineração. É muito poder, com aparente pouca responsabilidade, para quem tem um papel decisivo nas mudanças climáticas agora e no futuro.

 

Para quem investe na Tesla e torce por ela, pode ser particularmente preocupante ver que Musk dá livremente declarações que afetam sua posição no mercado. A polêmica com Bitcoin é só o mais recente capítulo na falta de consideração do seu fundador pela governança, o G em ESG. No passado, entre outras coisas, ele já inflou projeções de venda dos veículos elétricos e disse pensar em fechar o capital da empresa sem comunicar à Comissão de Valores dos EUA (SEC), o que lhe rendeu uma multa de US$ 20 milhões e perda da presidência no conselho da montadora. Embora os papéis da Tesla tenham se valorizado em mais de 700% em 2020, é complicado não ver Musk como uma carta coringa, colocando tudo a perder ou a ganhar de acordo com o seu humor. 

 

O ganho da Tesla com Bitcoin foi de US$ 200 milhões no primeiro trimestre, um bom pedaço do seu lucro de US$ 2,3 bilhões no período, 16% maior que o do ano passado, mostrando que a aposta em curto prazo foi boa. Porém, a situação otimista parece estar mudando rapidamente. O próprio Musk já se vê perdendo posições no ranking entre os mais ricos do mundo, ocupando neste momento o terceiro lugar ele era o primeiro até pouco tempo atrás após perder US$ 9,1 bilhões com seu tweet. As ações da Tesla estão em US$ 480 no momento, longe dos US$ 900 que chegaram a bater meses atrás. E a China já deu sua contribuição para mais uma queda de valor de Bitcoin, proibindo, em mais uma fatídica quarta-feira (19/5), que bancos e empresas de pagamento do país executem serviços com criptomoedas. Neste cenário, com tudo em desfavor, há quem já aposte contra Musk e Tesla, caso de Michael Burry, gestor da Scion Asset Management, retratado por Christian Bale no filme Big Short. Será que ele acreditou que Elon não sabia também? 

Então Elon Musk não sabia?

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