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A verdade sobre nossas cidades, água e energia

A crise hídrica que vivemos no nosso país nos últimos 30 anos e que já resultou numa perda de 15% dos nossos recursos hídricos nesse período está diretamente relacionada à crise elétrica que enfrentamos hoje e que impacta diretamente o funcionamento das nossas cidades. O avanço da crise climática aliado ao brutal processo de desmatamento da Amazônia tem afetado fortemente nossas reservas hídricas gerando não só perda de água potável como também de capacidade de geração hidroelétrica, nossa matriz principal responsável por 62,5% da nossa eletricidade em 2020, nos levando ao risco de um novo apagão. 

É bem verdade que nosso uso de energia hidroelétrica vem decaindo de 68% em 2012 para os citados 62,5% em 2020 e que a capacidade instalada de fontes renováveis variáveis elétricas aumentou de 9,6% para 20.2% no mesmo período. Entretanto, é importante ressaltar a diferença entre matriz elétrica e matriz energética. Enquanto nossa matriz elétrica apresenta de fato 82,7% de fontes renováveis, a nossa matriz energética apresenta energia proveniente de 45% de fontes renováveis e 55% de fontes não-renováveis, ou seja, combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural. 

No que tange a matriz elétrica, o que poderia parecer um cenário confortável apresenta hoje um sistema em estresse crítico devido principalmente ao processo de seca generalizado que ocorre nas regiões Centro-oeste e Sudeste devido a intensificação do processo de destruição da Amazônia que enfraquece gravemente o sistema dos Rios Voadores, principal abastecimento de água para as populações dessas regiões que respondem juntas por 49% da população do país (CO 7%, SE 42%). 

A esse fenômeno alia-se a idade útil dos equipamentos hidrelétricos, a qualidade de sua manutenção, pela maior perda de água que se dá no processo de produção de energia hidroelétrica e na evaporação das represas e açudes. Piorando muito a situação, o nível dos reservatórios do Sistema Sudeste-Centro Oeste, responsável por 70% da capacidade de armazenamento do país, estava em 24,6% em Julho. Hoje, na berlinda da crise elétrica, são feitos apelos principalmente à população urbana como se a mesma fosse a grande responsável pelo consumo de nossa eletricidade e água, mas será que isso é verdade?

Dados do Balanço Energético Nacional – EPE (2018) demonstram que a maior parte da energia elétrica no Brasil é consumida pela indústria com 35,8%, seguida pelo uso residencial com 28,9% e pelo comércio com 19%. Já no quadro de uso geral de energia a discrepância aumenta com a indústria respondendo por 33%, o setor de transportes por 32,4%, o próprio setor energético por 10,3% e as residências por 9,7% (EPE, 2018). Então cidadão, a maior responsabilidade pela crise elétrica não é sua e você não deveria precisar tomar banho gelado no fim do inverno como sugerido recentemente pelo presidente da república. 

No que se refere ao uso da água, a distância entre a narrativa de foco nos hábitos de consumo individuais e a realidade do consumo pelo agribusiness é ainda mais exorbitante. Claro, todos nós devemos ser o mais conscientes possível em relação ao nosso consumo, mas o que vai transformar mesmo os padrões de consumo de nosso sistema são avanços tecnológicos e melhores regulações no agronegócio, responsável por 72% do consumo de recursos hídricos no Brasil. O consumo animal é então responsável por 11% e a indústria por 7%, cabendo a população urbana apenas 9% do consumo total de água no país (WRI, 2017).

De toda forma, não existe uma infraestrutura inteligente no país capaz de priorizar o consumo humano em períodos de grave seca, que devem se tornar mais rotineiros. Conclusivamente, se o desmatamento da Amazônia não for parado de maneira decisiva, o Sistema dos Rios Voadores da Amazônia irá colapsar. Tal fenômeno configura uma crise sem precedentes devido ao fato de que essa é a principal fonte de água de metade da nossa população e do Sistema Centro-Oeste Sudeste, maior responsável pelo abastecimento das hidrelétricas no país. Gerando assim uma profunda crise hídrica e energética nas nossas maiores cidades e aglomerações urbanas como a macrorregião Rio-São Paulo, casa de 43 mi de habitantes. 

Como não podemos depender da velocidade de adaptação e construção de resiliência dos gestores dos sistemas hídricos e elétricos nacionais precisamos desenvolver estratégias e mecanismos de uso mais eficiente de água e energia nas cidades, mesmo que não sejamos de fato responsáveis pela malfadada crise que vivemos. Soluções como a inserção de energia solar e de sistemas de reuso de água de forma padronizada e escalável nos Planos Diretores com incentivos financeiros construtivos nas nossas cidades são essenciais para nossa sobrevivência enquanto lutamos até conseguir parar esse desmatamento suicida da Amazônia e Pantanal pelo agronegócio e a grilagem de terras. Para vencer essa luta precisaremos integrar estratégias locais, regionais e nacionais e entender que o primeiro passo para não faltar água e energia nas nossas cidades é manter a Amazônia e nossas florestas de pé.

 

Pedro Henrique de Cristo

A verdade sobre nossas cidades, água e energia

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