Fervura no Clima e uma ilustração de turbina eólica.

#FervuraNoClima

INSPIRAÇÃO PARA ENFRENTAR O AQUECIMENTO GLOBAL

Fervura no Clima e uma ilustração de usina termelétrica sendo desativada.

O Relógio
do Clima!
SAIBA MAIS

São Paulo na corda bamba

A cidade mais rica do país não está preparada para as mudanças no clima
Mãe e filhos sem luz em periferia de São Paulo após Ciclone Extratropical; Fonte: Outras Palavras (Creative Commons)

Maria pensava em guardar logo na geladeira a feira reforçada que fez para o aniversário do filho, João, em terminar no prazo a edição de peça publicitária na sua produtora, Giovana nos seus bebês pacientes na UTI neonatal da periferia onde trabalha como residente e Helena em ver sua filha e marido na chegada no aeroporto de Congonhas depois de uma longa e cansativa viagem de trabalho. Entretanto, após um dia de ciclone extratropical com ventos que chegaram a 98 km/h na maior cidade do hemisfério sul, todos os seus planos vieram por água abaixo, ou melhor, árvores abaixo. Eles juntos com em torno de outros 4,5 mi de habitantes em São Paulo teriam que encarar 3 dias sem energia, que em sequência, com o esgotamento das caixas d’água de prédios e casas junto a falta de energia para bombear a água para cima significaria também alguns dias sem água enquanto muitos continuariam sem luz por pelo menos uma semana. 

Da Oscar Freire às periferias, cidadãos como Maria tiveram que ver alimentos estragarem e planejar seus dias tomando banho no trabalho. Claro, que os mais vulneráveis sempre sofrem mais intensamente e mais rápido, mas uma coisa que ficou clara para todos é o quanto a cidade mais rica do Brasil está completamente despreparada para lidar com os crescentes e cada vez mais fortes eventos extremos da crise climática. A verdade é que enquanto nos preocupamos com as coisas mais urgentes e ordinárias das nossas vidas privadas, São Paulo e todo o Brasil estão na corda bamba, muito mais perto do colapso sistêmico do que queremos  imaginar. 

imagem do Ciclone Extratropical do dia 10 de dezembro em São Paulo e região SE do Brasil. Fonte NOAA

Confesso que gostaria de falar menos do alerta existencial, do quão perto estamos do colapso e focar muito mais em compartilhar as soluções decisivas do urbanismo climático que misturam adaptação, transição energética e regeneração ambiental com inclusão urbana, da modelagem paramétrica 4D de cenários climáticos e hidrológicos futuros para informar intervenções efetivas e do prazer que é unir ciência de ponta com tecnologia, todas as disciplinas e a participação democrática das comunidades em geral para melhorar e criar soluções. Entretanto, esse alerta é de fato um “Anúncio de Serviço Público”, como diria o rapper Jay-Z, sim aquele casado com Beyoncé, em uma de suas melhores músicas, “Public Service Announcement/ My name is HOV”

Em meio a crise, o modus operandi comum da política e dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento aflorou mais uma vez: pensar unicamente em soluções de curto prazo e encontrar entre os responsáveis o elo mais fraco para eximir culpa dos demais e manter tudo do mesmo jeito depois. No caso a batata quente ficou para a famigerada Enel. Empresa que pela trilionésima vez mostra como em geral não é bom negócio privatizar serviços essenciais como energia e água e saneamento, especialmente nesse mundo em que vivemos com a crise climática. 

Skyline de São Paulo sem luz durante o Ciclone de de 10 de dezembro Fonte: A Cidade ON (Creative Commons)

Em meio ao pingue-pongue entre Enel, Prefeitura, Governo Estadual e Governo Federal, as falsas soluções de prateleira para o curto prazo reaparecem sem o menor raciocínio. “A culpa é das árvores” defendem as “autoridades” e a concessionária, diferentemente de podar e cuidar destas corretamente dizem: “É preciso podar e cortá-las”, realmente, uma posição muito inteligente sendo evidente que nosso planeta esquenta descontroladamente e que nossas cidades com toda sua massa de concreto, asfalto e metal esquentam mais ainda sendo as árvores nosso principal mecanismo de controle de temperatura e umidade junto com estruturas azuis  (água controlada) nas nossas áreas urbanas. 

Para alguma intervenção ser realmente resiliente ela precisa aguentar o tranco da disrupção em questão, no caso o ciclone, e transformar as forças e condições que causam a disrupção e seus efeitos em cadeia. No caso mudar nossa matriz energética e solucionar o problema dos impactos dos eventos extremos no(a) grid/grade de energia e todo seu sistema de transmissão com o aterramento dos fios e expansão de grids solares autônomos, como vimos de maneira improvisada com as baterias de carros elétricos abastecendo casas e produtoras como a de João por 4 dias após a queda de energia. Cada prédio e casa precisa ter sua usina tanto pela transição energética como pela necessidade de adaptação e resiliência aos eventos extremos. Só assim teremos o que chamamos de resiliência climática positiva (Davis, D; et de Christo, P) e a vida dos bebês pacientes de Giovana não vão depender da quantidade de diesel no gerador do hospital enquanto lideranças inefetivas cambaleiam para arrumar uma solução. 

Uma resiliência climática de equilíbrio é aquela que adapta a situação mas não muda as condições como o seria manter a fervura global com o uso de combustíveis fósseis e aterrar os fios. Ou seja, uma em que temporariamente não haverão quedas de energia pelo derrubamento dos fios mas num futuro próximo eventos tão mais intensos devido à continuada fervura global resultante do uso de combustíveis fósseis irão rachar as estruturas subterrâneas causando os mesmos efeitos de queda de energia. E uma de resiliência negativa que seria cortar e podar as árvores em excesso enquanto mantemos o uso de combustíveis fósseis fervendo o clima e não aterramos os fios. Ou seja, momentaneamente as árvores não derrubariam mais tantas linhas de transmissão, até os eventos, e ventos, se tornarem mais intensos deixando tudo do mesmo jeito, e de imediato todos derreteriam muito mais no calor escaldante das ilhas e domos de calor gerados por nossas cidades em parceria malvada com a crise climática. Genial, não? A última opção é o que nossas “lideranças” em sua maioria estão a indicar.

Um dos fatores mais determinantes na separação de nações desenvolvidas em comparação com subdesenvolvidas e em desenvolvimento é a capacidade de pensar, planejar e agir não só no curto mas também nos médio e longo prazos. Por exemplo, aterrar os fios em São Paulo é caro? É, agora muito mais caro é a cidade colapsar uma ou mais vezes ao ano, todos os anos por falta de um investimento que apesar de ter um custo fixo alto se paga ao longo do tempo e se torna cada vez mais uma realidade inescapável. 

Aterrar os fios em São Paulo não é mais apenas uma opção: é uma necessidade urgente visto que em 6 dias o prejuízo para economia da cidade apenas nos setores de varejo e serviços foi de R$ 1,54 bi (Fecomércio). Valor que é certamente muito maior ao serem contabilizados os demais setores da economia e também os demais territórios do Brasil integrados à cadeia produtiva paulista como observado pelo atraso de mais de 400 vôos, como o de Helena, por todo o Brasil devido aos impactos do ciclone. 

Especialistas de geopolítica costumam dizer que o colapso da civilização está logo depois da falta de três refeições para todos. A falta de luz e a subsequente falta de água como visto agora em São Paulo devido ao ciclone e em maior intensidade como visto nas chuvas do Rio Grande do Sul e seca da Amazônia no ano passado são um grande alerta para como nossas cadeias logísticas de serviços e produtos públicos e privados nos quais nossa sociedade depende estão vulneráveis aos crescentes riscos e eventos extremos da crise climática.

 Muito mais importante do que foi a COP é a execução de real liderança por nossos políticos com a criação de um sistema de segurança climática não só para responder a eventos extremos mas para fazer a antecipação, adaptação, transição energética e regeneração ambiental ao mesmo tempo por meio da união de ciência, tecnologia e urbanismo climático. Precisamos criar uma agência federal de ação e segurança climática que atue unindo os governos federal, estaduais e municipais em ações e projetos concretos, não apenas relatórios, em parceria com as comunidades locais de todo o país. Como dito, precisamos que os adultos na sala dêem um passo à frente e abandonem seus entendimentos fósseis para fazer tudo ao mesmo tempo em todo lugar pelo clima, esse é o tamanho do desafio em que nos encontramos. 

Temos que mudar o discurso de que ação climática é para apenas “salvar as florestas”, algo muito importante mas incompleto, e entender que nós estamos no cerne do grande risco da fervura global. Mais que tudo, a superação da crise climática é uma questão de interesse para sobrevivência humana e também, é claro, do nosso querido Brasil, país de população 87% urbana. 

Pedro Henrique de Christo (urbanista climático, presidente do NAVE – Novo Acordo Verde e MPP’11 Harvard);

Assine nossa Newsletter

Nós Não Enviamos Spam!

    Parcerias

    aceleração

    You don't have permission to register